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Anas Bukhash: Olá, Hande. Como você está realmente?

Hande Erçel: Obrigada. Como eu estou de verdade? No momento estou um pouco ansiosa e apreensiva. Não é algo que eu faça muito, poder falar tão abertamente assim com todos. Não é fácil falar, mas eu te assisti e você realmente tem uma energia que faz a gente se sentir bem e confortável para conversar. É por isso que estou feliz por estar aqui. Não posso dizer que costumo dar entrevistas. A última vez foi há anos, talvez 4 anos atrás, quando participei de um programa e foi por obrigação. Então, eu acabei mentindo sobre como me sentia. Agora, como eu me definiria aqui, eu sinceramente não sei. Em vez de me definir, prefiro que as pessoas te digam quem eu sou. Porque nem eu mesma sei exatamente quem sou. Qual Hande? Ou há muitas Handes, mas prefiro não expressar isso, prefiro que os outros contem.

Anas: Entendo 100%. Vamos falar de forma um pouco mais detalhada.

Hande: O que posso dizer é que eu sabia quem eu era até uma certa idade. Depois, perdi muito do que me formou. E, com essa perda, estou me procurando novamente. A falta disso me fez buscar novas razões para me agarrar à vida e me redefinir; estou num período em que estou tentando aprender. Por isso, ainda não posso dar uma definição de quem eu sou. Claro que o ambiente em que vivemos, nossa família, o lugar onde crescemos e nossos amigos são fundamentais. Eles estão em cada pedaço da minha alma. Eles me formam, me preenchem. Penetraram nas minhas células mais profundas, e não consigo me definir como uma entidade separada. Acredito que a humanidade é uma só. Por isso, ao se definir, você não pode cortar os laços com o ambiente e com quem você ama.

Anas: Se você pudesse pintar o que está sentindo agora, como seria?

Hande: Eu compraria tintas muito diferentes e coloridas. Não desenharia nada específico, mas reuniria as cores que me fariam sentir bem naquele momento e começaria a dançar com a tela. A forma que ela toma quando danço e a mistura daquelas cores seria a única maneira de refletir exatamente o que estou sentindo. A primeira cor que me vem à mente é rosa claro, embora eu não seja uma pessoa de vestir muitas cores, ultimamente estou tentando ser mais colorida. Um amarelo bonito, ou talvez marrom, com um pouco de cinza.

Anas: Como você se descreve em poucas palavras?

Hande: Alegre, feliz e animada. Eu sempre ficava muito empolgada com coisas novas. Cresci em um lugar muito pequeno, e havia tão poucas opções lá que eu sempre tentava encontrar as novidades. Eu só fui descobrir o bairro vizinho aos 13 anos. Por isso, sempre fui muito animada para coisas e pessoas novas, para ir a lugares diferentes e sair da minha bolha.

Anas: Qual é a sua melhor lembrança da infância?

Hande: Morávamos num condomínio que tinha um parque no meio. Minha irmã e eu vivíamos naquele parque o dia todo. No final da tarde, minha mãe chamava da janela: “Hande, Gamze, venham para casa!”. Eu sempre esperava por aquela voz da minha mãe. Sempre que penso na infância, essa é a minha melhor lembrança, porque sei que a minha mãe está ali nos chamando.

Anas: Muitas pessoas só valorizam as coisas quando as perdem. Você é assim?

Hande: Eu não. Sempre dei valor ao que tinha enquanto estava presente. Fui ensinada assim. Cresci sem ver a falta de nada, mas sempre com o sentimento de que deveria valorizar o que possuía e as pessoas ao meu redor. As coisas não ganham valor para mim só quando as perco; elas sempre foram valiosas. Se você nunca faz alguém se sentir desvalorizado, essa pessoa se entrega 100% para você. Na infância, sempre fui muito amada, só fui conhecer o sentimento de desvalorização depois de adulta, quando entendi como as pessoas sofrem com isso.

Anas: Você é constantemente julgada por sua estética e aparência no seu trabalho. Como lida com as críticas?

Hande: Você tenta fazer o seu trabalho, mas as pessoas já têm uma perspectiva formada sobre você. Acham você linda ou nada bonita, comum ou maravilhosa. Você está ali, tentando ser apreciada pela sua arte e profissão, mas se a pessoa te avalia apenas fisicamente, não importa o quanto você se esforce, você não pode mudar a mente dela. Hoje percebo que isso não está nas minhas mãos. Para mim, a beleza é algo completo, vem de dentro para fora. Não importa o quão bonita você seja por fora, se houver maldade no coração, a beleza some. A verdadeira beleza é quando fluem compaixão e bondade de dentro.

Anas: O que é o sucesso para você?

Hande: Sucesso é o quanto você se aproxima dos sonhos que construiu, e não a visão e as expectativas dos outros. Sinto que tenho uma jornada muito longa que ainda nem começou. Quero que meus desenhos cheguem a um certo nível para que eu possa exibi-los. Tenho um ateliê e pinto há muito tempo, mas só quando chegar a uma certa idade quero que as pessoas vejam as obras. Sou reservada com meus sonhos. Antes eu contava logo: “Vai acontecer!”, mas percebi que de tanto falar, a energia se esgota e as coisas não andam. Agora aprendi a guardar para mim.

Anas: Falando sobre o seu corpo, como foi passar por especulações de peso?

Hande: As pessoas achavam que eu estava muito acima do peso. Estou no setor da televisão há mais de 10 anos, engordei e perdi peso na frente de todo mundo. Ganhei cerca de 8 quilos em um ano e meio, e depois perdi, mas as pessoas exageram muito e criam histórias irreais de que eu era muito obesa e emagreci demais, o que não foi o caso.

Anas: Sobre a perda irreparável da sua mãe. Como você conseguiu superar e lidar com isso?

Hande: Tudo me lembra ela. Primeiro você não entende, não percebe o que está acontecendo. Até hoje não sei se consegui lidar totalmente, mas me agarro ao seguinte: o que ela gostaria de mim agora? O que ela me diria? Direciono minha vida assim, porque a existência, a carne e os ossos dela vivem em mim. Você aprende a nadar nesse mar da perda e espera um dia reencontrá-la. Eu tinha 25 anos quando aconteceu, faz 6 anos. A gente não se acostuma, mas acho que o maior dom que Deus nos deu é a capacidade de adaptação para continuar vivendo. Há dias em que choro aos gritos como no primeiro dia, e dias em que a aceitação vence.

Anas: E em relação à sua sobrinha, Mavi, que teve problemas de saúde recentemente?

Hande: Graças a Deus agora ela está muito bem. Ela superou a doença com 2 anos e meio. Foi um choque terrível, em cima de outro trauma que já tínhamos. Ela terá que se cuidar pelo resto da vida, e nós também. Mas hoje ela é uma criança muito doce, alegre e cheia de vida. Tenho um vínculo extremamente forte com a minha mãe, minha irmã e a Mavi. Exatamente por isso, quero ter um vínculo também com alguém do meu próprio sangue, um filho, para que essa corrente de amor continue.

Anas: Você daria o nome Mavi à sua filha?

Hande: Não. O nome Mavi é apenas dela, ela é a luz da nossa família. Não consigo pensar em transferir isso.

Anas: O que essas dores todas te ensinaram?

Hande: Até eu perder a minha mãe, eu não sabia o que era a vida. Não sabia o que era chorar de verdade. Eu vivia de forma superficial. Foi depois dessa dor gigantesca que aprendi o que é realmente o ser humano e a emoção. Sou grata por ter aprendido, e grata por ter tido uma juventude inocente e leve antes de tudo acontecer.

Anas: Como você define o amor?

Hande: Eu sou muito apaixonada. Sou apaixonada pela Mavi, pelos meus três cachorros – que considero meus filhos –, pelos meus amigos e pelo meu parceiro no meu relacionamento. O amor é a emoção mais alta que existe, é algo que faz meu peito inflar e o coração se expandir.

Anas: O que te mantém centrada diante da fama e da energia dispersa?

Hande: A fama expõe você a todos, sua energia fica dividida. Você precisa constantemente olhar para si mesma e perguntar: “Onde eu me perdi e onde eu estou agora?”. Eu já me senti morta por dentro várias vezes e, mesmo assim, tive que sorrir e parecer bem, esperando ao menos um olhar de compreensão de alguém. Quando perco o meu eixo, recorro imediatamente à minha casa, à minha família, ao meu relacionamento e aos meus velhos amigos de infância (estamos juntas desde os 5 anos de idade). Eles são a minha raiz.

Anas: Acredita que as pessoas evoluem em seus relacionamentos?

Hande: Alguém muito importante me disse recentemente: “Quando você escolhe alguém, é a versão de você daquela idade que está escolhendo. Se passa muito tempo, você se transforma”. Se você comete os mesmos erros, é porque não mudou. Mas se você se transforma, você passa a buscar parceiros que refletem a sua nova versão. Eu amo ter 30 anos, as lições que aprendi, mas confesso que sinto que a vida me deve um pouco de juventude, gostaria de ter parado nos meus 24 anos.

Anas: Você mencionou que guarda ressentimento do julgamento das pessoas?

Hande: Sim. Quando eu estava vivendo os meus piores dias com a perda da minha mãe, fui duramente atacada no meu próprio país. Recebi comentários cruéis e humilhantes sobre meu corpo, meu rosto e minha atuação. Revistas e pessoas me apelidaram de “pão”, destruíram minha imagem enquanto eu estava definhando em casa de dor. Eu pensava: “Estou lidando com a vida e a morte, me deixem em paz!”. Esse linchamento coletivo afeta muito uma garota tão nova. Eu me mantive firme porque minha dor real era muito maior, mas se eu não fosse forte, teria caído num buraco e me tornado uma pessoa ruim. Eu não perdoo e nunca vou perdoar essas pessoas pelo que fizeram naquela época.

Anas: Qual o momento em que você se sentiu mais forte e corajosa na vida?

Hande: Na minha primeira viagem sozinha. Fui para um lugar, peguei minha mochila, caminhei pelas ruas, sentei num café, paguei meu jantar com meu próprio dinheiro sem depender de ninguém. Eu me senti muito forte.

Anas: Hoje em dia, qual o seu maior medo e o seu maior motivo de gratidão?

Hande: Meu maior medo, que eu até tenho receio de pronunciar para não atrair a energia, é perder mais alguém que eu ame profundamente. Quanto à gratidão, hoje minha carreira, minha família e meu relacionamento estão maravilhosos. Só agradeço. A única coisa que preciso agora é de um pouquinho mais de descanso.

Anas: Há mais alguma lembrança da sua mãe que guarda com carinho?

Hande: Nós amávamos Sezen Aksu (cantora turca), ela sabia todas as músicas de cor. A minha última lembrança dela no hospital foi quando coloquei uma música da Sezen Aksu para tocar. Ela não conseguia mais falar, apenas virou, olhou para mim, balançou a cabeça e nós escutamos juntas, em silêncio.

Anas: Você sente que se fechou muito para as pessoas?

Hande: Sim, eu era uma borboleta social antes de tudo, mas mudei devido aos julgamentos de quem sequer me conhecia. Hoje eu não sinto mais a necessidade de me explicar. Só me abro para quem realmente quer me conhecer de coração. Eu falei hoje sobre feridas e portas trancadas das quais eu não falava com ninguém. Você me passou confiança e abriu essa porta. Muito obrigada.

Anas: Muito obrigado a você, Hande, por essa entrevista linda.

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Entrevista de Hande Erçel,